Professores mais velhos, os mais insatisfeitos da OCDE com o salário e escolas sem salas onde a demografia prometia menos alunos: o que o Education at a Glance 2026 revela sobre Portugal
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) publicou a 29 de setembro de 2026 o Education at a Glance 2026, o relatório anual que compara os sistemas educativos dos países membros e de vários países parceiros. O tema central desta edição é a escassez de professores: quantos faltam, onde faltam, porque faltam e o que os sistemas educativos podem fazer para inverter a tendência.
Para Portugal, o retrato é exigente. O país surge com um dos corpos docentes mais envelhecidos da OCDE, com os professores menos satisfeitos com o salário e com uma das perceções mais baixas de valorização social da profissão. Ao mesmo tempo, o relatório projeta uma descida do número de alunos em idade escolar que contrasta com o que as escolas de Lisboa, Setúbal e do Algarve estão a viver neste arranque de ano letivo. Este artigo resume o essencial, compara Portugal com os países com melhores resultados e aponta o que tudo isto significa para o trabalho diário dos professores.
Fonte: OCDE, Education at a Glance 2026 (tabelas 4 e 5, com dados TALIS 2024 para professores do 3.º ciclo).
O que diz o relatório, em síntese
A falta de professores raramente aparece sob a forma de lugares vazios. Em todos os países com dados, as vagas por preencher ficam abaixo de 4% dos lugares docentes. O problema manifesta-se sobretudo de outras formas: professores sem qualificação completa, disciplinas e regiões onde ninguém concorre, substituições que não chegam e um corpo docente que envelhece sem renovação.
A OCDE insiste num ponto que interessa diretamente ao debate português: o salário conta, mas não chega. A satisfação dos professores depende também da autonomia, do clima de escola, da liderança, do reconhecimento público e da carga de trabalho. Os professores que sentem que a profissão é valorizada têm, em média, uma probabilidade inferior em mais de 10 pontos percentuais de querer abandonar o ensino nos cinco anos seguintes, mesmo depois de se controlarem salário e condições de contrato.
Um corpo docente envelhecido e quase sem jovens
O relatório inclui Portugal no pequeno grupo de países com maior pressão de envelhecimento, ao lado da Estónia, da Letónia, da Lituânia e de Itália: perto de quatro em cada dez professores aproximam-se da reforma. No 3.º ciclo e no secundário, 38% dos docentes têm 55 ou mais anos (média da OCDE: 25%), contra 22% dos trabalhadores portugueses com mestrado e 24% do conjunto da população empregada. Na educação pré-escolar a proporção chega a 41%, mais do dobro da média da OCDE (19%).
O dado mais preocupante está na outra ponta: apenas 6% dos professores têm menos de 35 anos, a proporção mais baixa entre todos os países com dados. Só nos meses de setembro e outubro de 2026 aposentam-se 1 102 docentes. Sem jovens a entrar ao mesmo ritmo, cada reforma é uma turma a descoberto.
A comparação com a Estónia é instrutiva. O país tem um corpo docente tão envelhecido como o português e, mesmo assim, está entre os melhores do mundo no PISA. A diferença está no resto do quadro: a Estónia tem quase três vezes mais professores jovens e 73% dos seus docentes estão satisfeitos com as condições de trabalho, contra 39% em Portugal. A idade, por si só, não explica os resultados; a capacidade de renovar e de reter, sim.
O paradoxo demográfico: menos crianças no papel, escolas cheias na realidade
O relatório projeta que a população portuguesa dos 5 aos 14 anos diminua cerca de 6% entre 2024 e 2033, uma quebra menor do que a média da OCDE (-9%). A nota da OCDE dedicada a Portugal tira daqui uma conclusão explícita: a descida “aponta para uma menor procura de professores, caso as restantes políticas se mantenham inalteradas”. Menos crianças significariam, a prazo, menos pressão sobre as escolas. O problema é que esta leitura não encaixa no que as escolas portuguesas estão a viver.
Fonte: OCDE, Education at a Glance 2026, tabela 7. O comprimento das barras representa a dimensão da quebra.
Há três razões para ler esta projeção com cautela. A primeira é temporal: os dados de alunos usados no relatório referem-se ao ano letivo de 2023/24, anterior à fase mais intensa de chegada de famílias imigrantes às escolas. A segunda é que o texto do relatório não analisa a imigração em Portugal; limita-se a admitir, em termos gerais, que a migração pode ter ajudado a sustentar a população escolar em alguns países. A terceira é que a composição da natalidade portuguesa mudou de forma estrutural.
Em 2024/25 estavam matriculados na escolaridade obrigatória cerca de 195 mil alunos estrangeiros, segundo dados do Ministério da Educação citados pela ONU News. O Brasil é a principal origem (quase metade), seguido dos países africanos de língua oficial portuguesa, com crescimento acentuado de alunos da Índia, do Nepal, do Bangladesh, do Paquistão e da Ucrânia. Em vários concelhos do Algarve, da Área Metropolitana de Lisboa e da Península de Setúbal, mais de 30% dos alunos são estrangeiros. Como perto de três em cada dez nascimentos já são de mães estrangeiras, esta presença não é uma vaga passageira: vai entrar no pré-escolar e no 1.º ciclo nos próximos anos, a par das crianças que continuam a chegar com as famílias.
Curiosamente, é o próprio relatório que dá sinais de que as escolas estão mais cheias. Entre 2015 e 2024, o número de alunos do ensino secundário cresceu 1,3% ao ano, enquanto o número de escolas quase não se alterou (+0,1% ao ano). No 3.º ciclo, o número de alunos manteve-se praticamente estável (+0,07% ao ano), mas o número de escolas diminuiu 0,5% ao ano, dez vezes mais depressa do que a média da OCDE. O resultado é visível no número médio de alunos por ano de escolaridade em cada escola.
Fonte: OCDE, Education at a Glance 2026, indicador B2 (dados de 2015 e 2024).
Setembro de 2026: alunos sem escola e escolas sem salas
O arranque do ano letivo 2026/27 mostrou o outro lado da projeção demográfica. No concelho de Lisboa, 613 alunos não tinham colocação numa escola; em Sintra eram 744. Só numa semana surgiram em Lisboa 134 novos pedidos de matrícula. A 14 de setembro, uma reunião de mais de sete horas entre o Ministério da Educação, Ciência e Inovação e cerca de 30 diretores escolares distribuiu os 613 alunos de Lisboa por turmas já existentes, a maioria em regime de supranumerário. Não foram criadas novas turmas, porque não havia salas para elas.
O ministro Fernando Alexandre reconheceu que há “um grande número de alunos migrantes” a ser colocado e muitos “pedidos de matrícula que surgiram tardiamente”, admitindo que pode haver “um pouco mais de pressão demográfica”. Acrescentou que “até aos 30 alunos não há evidência de que isso seja mau para a qualidade do ensino” e que a situação “acontece todos os anos”. É precisamente essa repetição que merece atenção: um problema que regressa todos os setembros deixou de ser conjuntural.
Para quem está na sala de aula, turmas sobrelotadas com alunos que chegam a meio do ano, muitas vezes sem falar português, significam menos tempo por aluno, planificações que têm de ser refeitas e avaliações diagnósticas contínuas. Com 91% dos professores portugueses a relatar que precisam frequentemente de acalmar alunos perturbadores (média da OCDE: 72%), cada aluno a mais numa turma já no limite pesa no clima de toda a turma.
A falta de professores já se mede em alunos
Ao mesmo tempo que chegam mais alunos, faltam professores para os receber. Os números do início deste ano letivo confirmam o diagnóstico da OCDE e mostram que o problema se concentra nas mesmas regiões onde as escolas estão mais cheias: Grande Lisboa, Setúbal e Algarve.
O Education at a Glance 2026 ajuda a perceber porque é tão difícil atrair e reter professores em Portugal. Os salários de entrada no ensino básico e secundário caíram 10% em termos reais entre 2015 e 2025, quando na média da OCDE subiram entre 18% e 20%; Portugal está entre os poucos países com uma quebra desta dimensão, a par da Costa Rica e de Itália. Um em cada cinco professores tem contrato de um ano letivo ou menos. E os indicadores de satisfação ficam muito abaixo da média.
39,1%
68,4%
13,4%
38,7%
8,7%
21,7%
20,7%
13,6%
Fonte: OCDE, Education at a Glance 2026, tabela 5.
A nota da OCDE regista as medidas tomadas em 2023 e 2024: vinculação de professores contratados aos quadros, reforma do recrutamento e da colocação, alargamento das vias de acesso à profissão, melhoria da progressão e das remunerações, e apoios à habitação e à mobilidade para quem aceita trabalhar nas regiões com mais falta de professores. Os efeitos ainda não aparecem nos dados, que terminam em 2024 e 2025. Há também margem por explorar: só 3,1% dos professores do 3.º ciclo chegaram ao ensino vindos de outra carreira, contra 8,4% na média da OCDE. Engenheiros, economistas ou investigadores que queiram mudar de vida são uma reserva ainda pouco aproveitada, sobretudo para as disciplinas de Matemática e Ciências.
Há, ainda assim, um dado positivo que não deve passar despercebido: os professores portugueses participam em formação contínua bem acima de outros trabalhadores com formação superior (+20 pontos percentuais, uma das maiores diferenças da OCDE). A vontade de aprender e de melhorar está lá. Falta que o sistema a transforme em carreira, estabilidade e reconhecimento.
O que mostram os resultados do PISA 2025
Os resultados do PISA 2025, divulgados a 8 de setembro, completam o retrato. Os alunos portugueses de 15 anos ficaram próximos da média da OCDE nos três domínios principais, mas o ponto de partida era outro: em 2015, Portugal estava acima da média em todos eles. A Matemática e a Leitura regressaram a níveis de há cerca de 20 anos.
Escala das barras: 0 a 600 pontos.
O PISA não permite estabelecer uma relação de causa e efeito direta entre falta de professores e resultados, e a entrada recente de muitos alunos que ainda estão a aprender português também pesa nas médias. Mas os dados apontam no mesmo sentido: 44% dos alunos portugueses estão em escolas cujos diretores reconhecem que a falta de professores afeta o ensino, acima da média da OCDE. O único resultado claramente positivo surge no novo domínio de resolução computacional de problemas, onde Portugal fica ligeiramente acima da média.
Portugal face aos países com melhores resultados
A comparação com alguns dos sistemas com melhores resultados no PISA 2025 mostra um padrão claro. Nenhum deles combina, como Portugal, um corpo docente muito envelhecido, quase sem jovens, com níveis tão baixos de satisfação salarial e de reconhecimento social.
Fontes: PISA 2025 (Matemática); Education at a Glance 2026, tabelas 4 (idade, básico e secundário, 2024) e 5 (satisfação e valorização, professores do 3.º ciclo, TALIS 2024). *Nos Países Baixos, a OCDE recomenda cautela na leitura dos dados TALIS por risco de enviesamento de não resposta. Em ecrãs pequenos, deslize a tabela para o lado.
A Estónia mostra que um corpo docente envelhecido não é, por si só, uma condenação. O Japão e a Coreia mostram o valor de uma renovação geracional forte, com um em cada três ou quatro professores abaixo dos 35 anos. Os Países Baixos combinam professores jovens com salários e condições que a maioria considera satisfatórios. Portugal fica no fim de quase todas as colunas ao mesmo tempo, e é essa acumulação que torna a situação mais difícil de inverter.
O que isto significa para os professores e para a aprendizagem dos alunos
As grandes decisões (salários, carreira, construção de escolas, colocação de professores) dependem da tutela. Mas o cruzamento destes dados aponta para práticas concretas, ao alcance de qualquer professor e de qualquer disciplina, que fazem diferença na aprendizagem dos alunos numa escola mais cheia e mais diversa.




