Portugal e o Education at a Glance 2026 da OCDE

Education at a Glance 2026



Professores mais velhos, os mais insatisfeitos da OCDE com o salário e escolas sem salas onde a demografia prometia menos alunos: o que o Education at a Glance 2026 revela sobre Portugal

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) publicou a 29 de setembro de 2026 o Education at a Glance 2026, o relatório anual que compara os sistemas educativos dos países membros e de vários países parceiros. O tema central desta edição é a escassez de professores: quantos faltam, onde faltam, porque faltam e o que os sistemas educativos podem fazer para inverter a tendência.

Para Portugal, o retrato é exigente. O país surge com um dos corpos docentes mais envelhecidos da OCDE, com os professores menos satisfeitos com o salário e com uma das perceções mais baixas de valorização social da profissão. Ao mesmo tempo, o relatório projeta uma descida do número de alunos em idade escolar que contrasta com o que as escolas de Lisboa, Setúbal e do Algarve estão a viver neste arranque de ano letivo. Este artigo resume o essencial, compara Portugal com os países com melhores resultados e aponta o que tudo isto significa para o trabalho diário dos professores.

13,4%
dos professores portugueses estão satisfeitos com o salário. É o valor mais baixo da OCDE (média: 38,7%).
37%
dos professores do básico e secundário têm 55 ou mais anos (média da OCDE: 23%).
6%
dos professores têm menos de 35 anos. Na média da OCDE são 22%.
8,7%
sentem que a profissão é valorizada pela sociedade (média da OCDE: 21,7%).

Fonte: OCDE, Education at a Glance 2026 (tabelas 4 e 5, com dados TALIS 2024 para professores do 3.º ciclo).



O que diz o relatório, em síntese

A falta de professores raramente aparece sob a forma de lugares vazios. Em todos os países com dados, as vagas por preencher ficam abaixo de 4% dos lugares docentes. O problema manifesta-se sobretudo de outras formas: professores sem qualificação completa, disciplinas e regiões onde ninguém concorre, substituições que não chegam e um corpo docente que envelhece sem renovação.

9,1%
dos professores do básico e secundário da OCDE não têm qualificação completa. A proporção subiu em 17 de 25 países desde 2017/18.
11 em 16
países reportam falta de professores de Matemática e de Ciências no secundário. Artes e Educação Física são as áreas menos afetadas.
38%
das demissões de professores qualificados vêm de docentes com menos de cinco anos de carreira: perde-se gente precisamente à entrada.
72%
dos professores têm frequentemente de acalmar alunos perturbadores (eram 64% em 2018). Em Portugal são 91%.
52%
dos professores apontam o excesso de trabalho administrativo como fonte significativa de stress.
-9%
é a descida projetada da população dos 5 aos 14 anos na OCDE até 2033. Mas o relatório avisa: menos alunos não significa automaticamente menos falta de professores.

A OCDE insiste num ponto que interessa diretamente ao debate português: o salário conta, mas não chega. A satisfação dos professores depende também da autonomia, do clima de escola, da liderança, do reconhecimento público e da carga de trabalho. Os professores que sentem que a profissão é valorizada têm, em média, uma probabilidade inferior em mais de 10 pontos percentuais de querer abandonar o ensino nos cinco anos seguintes, mesmo depois de se controlarem salário e condições de contrato.

Um vazio que também é informação
Portugal não surge nas tabelas do relatório sobre vagas por preencher, professores sem qualificação completa e saídas da profissão em 2024/25. Sem estes indicadores, a comparação internacional da falta de professores fica incompleta precisamente no país onde o tema domina o início de cada ano letivo.



Um corpo docente envelhecido e quase sem jovens

O relatório inclui Portugal no pequeno grupo de países com maior pressão de envelhecimento, ao lado da Estónia, da Letónia, da Lituânia e de Itália: perto de quatro em cada dez professores aproximam-se da reforma. No 3.º ciclo e no secundário, 38% dos docentes têm 55 ou mais anos (média da OCDE: 25%), contra 22% dos trabalhadores portugueses com mestrado e 24% do conjunto da população empregada. Na educação pré-escolar a proporção chega a 41%, mais do dobro da média da OCDE (19%).

O dado mais preocupante está na outra ponta: apenas 6% dos professores têm menos de 35 anos, a proporção mais baixa entre todos os países com dados. Só nos meses de setembro e outubro de 2026 aposentam-se 1 102 docentes. Sem jovens a entrar ao mesmo ritmo, cada reforma é uma turma a descoberto.

Professores com 55 ou mais anos (básico e secundário, 2024)
Estónia38%
Portugal37%
Finlândia27%
Países Baixos23%
Média OCDE23%
Japão19%
Irlanda11%
Coreia10%
Professores com menos de 35 anos (básico e secundário, 2024)
Japão34%
Coreia28%
Irlanda28%
Países Baixos27%
Média OCDE22%
Finlândia21%
Estónia16%
Portugal6%

A comparação com a Estónia é instrutiva. O país tem um corpo docente tão envelhecido como o português e, mesmo assim, está entre os melhores do mundo no PISA. A diferença está no resto do quadro: a Estónia tem quase três vezes mais professores jovens e 73% dos seus docentes estão satisfeitos com as condições de trabalho, contra 39% em Portugal. A idade, por si só, não explica os resultados; a capacidade de renovar e de reter, sim.



O paradoxo demográfico: menos crianças no papel, escolas cheias na realidade

O relatório projeta que a população portuguesa dos 5 aos 14 anos diminua cerca de 6% entre 2024 e 2033, uma quebra menor do que a média da OCDE (-9%). A nota da OCDE dedicada a Portugal tira daqui uma conclusão explícita: a descida “aponta para uma menor procura de professores, caso as restantes políticas se mantenham inalteradas”. Menos crianças significariam, a prazo, menos pressão sobre as escolas. O problema é que esta leitura não encaixa no que as escolas portuguesas estão a viver.

Variação projetada do número de crianças, 2024-2033
Portugal, 0-4 anos-2%
Portugal, 5-9 anos-4%
Portugal, 10-14 anos-8%
Portugal, 5-14 anos-6%
Média OCDE, 5-14 anos-9%

Fonte: OCDE, Education at a Glance 2026, tabela 7. O comprimento das barras representa a dimensão da quebra.

Há três razões para ler esta projeção com cautela. A primeira é temporal: os dados de alunos usados no relatório referem-se ao ano letivo de 2023/24, anterior à fase mais intensa de chegada de famílias imigrantes às escolas. A segunda é que o texto do relatório não analisa a imigração em Portugal; limita-se a admitir, em termos gerais, que a migração pode ter ajudado a sustentar a população escolar em alguns países. A terceira é que a composição da natalidade portuguesa mudou de forma estrutural.

28,8%
dos bebés nascidos em Portugal em 2025 têm mãe de nacionalidade estrangeira (26,3% em 2024).
87 130
nascimentos em 2025, mais 3,7% do que em 2024. A natalidade voltou a subir.
1 em 7
alunos das escolas públicas tinha nacionalidade estrangeira em 2023/24. Entre 2014 e 2023 o número cresceu 283%.
19
nacionalidades diferentes, em média, em cada escola pública (eram 11 em 2018/19).

Em 2024/25 estavam matriculados na escolaridade obrigatória cerca de 195 mil alunos estrangeiros, segundo dados do Ministério da Educação citados pela ONU News. O Brasil é a principal origem (quase metade), seguido dos países africanos de língua oficial portuguesa, com crescimento acentuado de alunos da Índia, do Nepal, do Bangladesh, do Paquistão e da Ucrânia. Em vários concelhos do Algarve, da Área Metropolitana de Lisboa e da Península de Setúbal, mais de 30% dos alunos são estrangeiros. Como perto de três em cada dez nascimentos já são de mães estrangeiras, esta presença não é uma vaga passageira: vai entrar no pré-escolar e no 1.º ciclo nos próximos anos, a par das crianças que continuam a chegar com as famílias.

Curiosamente, é o próprio relatório que dá sinais de que as escolas estão mais cheias. Entre 2015 e 2024, o número de alunos do ensino secundário cresceu 1,3% ao ano, enquanto o número de escolas quase não se alterou (+0,1% ao ano). No 3.º ciclo, o número de alunos manteve-se praticamente estável (+0,07% ao ano), mas o número de escolas diminuiu 0,5% ao ano, dez vezes mais depressa do que a média da OCDE. O resultado é visível no número médio de alunos por ano de escolaridade em cada escola.

Média de alunos por ano de escolaridade, por escola, em Portugal
3.º ciclo, 201567
3.º ciclo, 202471
Secundário, 201593
Secundário, 2024103

Fonte: OCDE, Education at a Glance 2026, indicador B2 (dados de 2015 e 2024).

Dois países no mesmo relatório
A média nacional esconde duas realidades opostas. Entre 2015 e 2024, 95% das pequenas regiões portuguesas perderam população dos 10 aos 14 anos (dados de 2020), a proporção mais alta da OCDE, onde a média é de 43%. No interior, as escolas esvaziam. No litoral, sobretudo em Lisboa, Setúbal e no Algarve, faltam salas. Uma política pensada apenas a partir da média nacional arrisca-se a fechar turmas onde sobram lugares e a não abrir onde faltam.



Setembro de 2026: alunos sem escola e escolas sem salas

O arranque do ano letivo 2026/27 mostrou o outro lado da projeção demográfica. No concelho de Lisboa, 613 alunos não tinham colocação numa escola; em Sintra eram 744. Só numa semana surgiram em Lisboa 134 novos pedidos de matrícula. A 14 de setembro, uma reunião de mais de sete horas entre o Ministério da Educação, Ciência e Inovação e cerca de 30 diretores escolares distribuiu os 613 alunos de Lisboa por turmas já existentes, a maioria em regime de supranumerário. Não foram criadas novas turmas, porque não havia salas para elas.

“As escolas não têm espaço físico para albergar turmas novas. Estão a rebentar pelas costuras.”
Diretor escolar, citado pela CNN Portugal (14 de setembro de 2026)

O ministro Fernando Alexandre reconheceu que há “um grande número de alunos migrantes” a ser colocado e muitos “pedidos de matrícula que surgiram tardiamente”, admitindo que pode haver “um pouco mais de pressão demográfica”. Acrescentou que “até aos 30 alunos não há evidência de que isso seja mau para a qualidade do ensino” e que a situação “acontece todos os anos”. É precisamente essa repetição que merece atenção: um problema que regressa todos os setembros deixou de ser conjuntural.

Turmas de 30 alunos: o que diz a investigação
A afirmação do ministro tem uma parte de verdade: o próprio Education at a Glance 2026 reconhece que a evidência sobre o efeito direto da dimensão das turmas nos resultados “continua a ser mista”. Mas o mesmo relatório acrescenta que turmas mais pequenas podem dar um apoio mais dirigido aos alunos em contextos desfavorecidos. É precisamente esse o perfil de muitas das escolas hoje sobrelotadas.
Estudo encomendado pelo Ministério da Educação (CIES-Iscte, 2017). Com dados de alunos portugueses e controlando a origem socioeconómica, o percurso anterior e a origem imigrante, conclui que turmas maiores estão associadas a piores resultados nos exames de Matemática e Português do 6.º e do 9.º ano e a mais retenções, sobretudo no 3.º ciclo. Segundo o estudo, “o desempenho escolar dos alunos com origens socioeconómicas mais desfavorecidas é beneficiado com turmas mais pequenas”.
França, turmas desdobradas em zonas prioritárias (DEPP, 2026). A OCDE destaca a divisão das turmas dos dois primeiros anos em escolas desfavorecidas. Após dois anos, os alunos tinham melhores resultados em Francês e Matemática do que alunos comparáveis. Os ganhos atenuaram-se mais tarde, o que mostra que o efeito precisa de continuidade.
Menos tempo de ensino (OCDE, TALIS 2013, citado pelo CNE). Cada aluno a mais na dimensão média da turma está associado a uma perda de 0,5 pontos percentuais no tempo de aula dedicado ao ensino e à aprendizagem. O tempo perdido vai para a gestão da turma.
Menos atenção individual (Blatchford, Bassett e Brown, 2011). A observação sistemática de 686 alunos em 49 escolas inglesas mostrou que, em turmas maiores, os alunos recebem menos atenção individual e se envolvem menos nas tarefas. O efeito é mais forte nos alunos com resultados mais baixos do ensino secundário.
Efeitos que duram décadas (Tennessee e Suécia). No estudo experimental STAR, os alunos colocados em turmas pequenas tiveram mais probabilidade de chegar ao ensino superior (Chetty e colegas, 2011). Na Suécia, turmas menores nos últimos anos do ensino primário traduziram-se em melhores resultados aos 13 anos, mais anos de escolaridade e salários mais altos na idade adulta (Fredriksson, Öckert e Oosterbeek, 2013).
Nem todos os estudos encontram efeitos. Uma reanálise de dados israelitas recentes (Angrist e colegas, 2019) não detetou impacto, e a Education Endowment Foundation conclui que reduções pequenas, de 30 para 25 alunos, pouco mudam se o professor não alterar a forma de ensinar. O ponto comum a quase toda a investigação é outro: o efeito depende de quem está na turma. Numa turma de 30 com vários alunos que chegaram há semanas e ainda não falam português, a pergunta relevante não é se 30 é demasiado em abstrato, mas quanto tempo de ensino sobra para cada um.

Para quem está na sala de aula, turmas sobrelotadas com alunos que chegam a meio do ano, muitas vezes sem falar português, significam menos tempo por aluno, planificações que têm de ser refeitas e avaliações diagnósticas contínuas. Com 91% dos professores portugueses a relatar que precisam frequentemente de acalmar alunos perturbadores (média da OCDE: 72%), cada aluno a mais numa turma já no limite pesa no clima de toda a turma.



A falta de professores já se mede em alunos

Ao mesmo tempo que chegam mais alunos, faltam professores para os receber. Os números do início deste ano letivo confirmam o diagnóstico da OCDE e mostram que o problema se concentra nas mesmas regiões onde as escolas estão mais cheias: Grande Lisboa, Setúbal e Algarve.

110 000+
alunos sem todos os professores na semana de 7 a 11 de setembro (estimativa da FENPROF).
1 453
horários por preencher no arranque do ano letivo, mais 6% do que no ano anterior.
664
horários ainda por preencher a 29 de setembro, segundo números do próprio ministro.
44%
dos alunos de 15 anos estão em escolas onde o diretor diz que a falta de professores prejudica o ensino (OCDE: 39%, PISA 2025).

O Education at a Glance 2026 ajuda a perceber porque é tão difícil atrair e reter professores em Portugal. Os salários de entrada no ensino básico e secundário caíram 10% em termos reais entre 2015 e 2025, quando na média da OCDE subiram entre 18% e 20%; Portugal está entre os poucos países com uma quebra desta dimensão, a par da Costa Rica e de Itália. Um em cada cinco professores tem contrato de um ano letivo ou menos. E os indicadores de satisfação ficam muito abaixo da média.

Um paradoxo salarial
Há um dado do relatório que parece contradizer esta insatisfação: em média, os professores portugueses ganham entre 25% e 35% mais do que os outros trabalhadores com ensino superior, conforme o nível de ensino. Na média da OCDE, ganham entre 5% e 17% menos. A explicação está na estrutura da carreira. A média reflete um corpo docente envelhecido e concentrado nos escalões mais altos, enquanto quem entra hoje ganha menos, em termos reais, do que há dez anos. Portugal está também entre os países onde o salário máximo fica mais de 60% acima do salário ao fim de 15 anos de serviço, e onde o salário relativo dos professores do 3.º ciclo caiu mais de 5 pontos percentuais desde 2015. Para um jovem licenciado que pondera ser professor, o que pesa é o salário dos primeiros anos, a instabilidade dos contratos e o tempo que demora a chegar ao topo, e não a média.
Professores do 3.º ciclo: Portugal e média da OCDE (TALIS 2024)
PortugalMédia OCDE
Satisfeitos com as condições de emprego (excluindo salário)

39,1%

68,4%

Satisfeitos com o salário

13,4%

38,7%

Sentem que a profissão é valorizada pela sociedade

8,7%

21,7%

Com contrato de um ano letivo ou menos

20,7%

13,6%

Fonte: OCDE, Education at a Glance 2026, tabela 5.

A nota da OCDE regista as medidas tomadas em 2023 e 2024: vinculação de professores contratados aos quadros, reforma do recrutamento e da colocação, alargamento das vias de acesso à profissão, melhoria da progressão e das remunerações, e apoios à habitação e à mobilidade para quem aceita trabalhar nas regiões com mais falta de professores. Os efeitos ainda não aparecem nos dados, que terminam em 2024 e 2025. Há também margem por explorar: só 3,1% dos professores do 3.º ciclo chegaram ao ensino vindos de outra carreira, contra 8,4% na média da OCDE. Engenheiros, economistas ou investigadores que queiram mudar de vida são uma reserva ainda pouco aproveitada, sobretudo para as disciplinas de Matemática e Ciências.

Há, ainda assim, um dado positivo que não deve passar despercebido: os professores portugueses participam em formação contínua bem acima de outros trabalhadores com formação superior (+20 pontos percentuais, uma das maiores diferenças da OCDE). A vontade de aprender e de melhorar está lá. Falta que o sistema a transforme em carreira, estabilidade e reconhecimento.



O que mostram os resultados do PISA 2025

Os resultados do PISA 2025, divulgados a 8 de setembro, completam o retrato. Os alunos portugueses de 15 anos ficaram próximos da média da OCDE nos três domínios principais, mas o ponto de partida era outro: em 2015, Portugal estava acima da média em todos eles. A Matemática e a Leitura regressaram a níveis de há cerca de 20 anos.

Matemática
460
OCDE: 463 · 30.º lugar em 91
Leitura
462
Em linha com a média · 26.º lugar
Ciências
482
OCDE: 482 · 29.º lugar
Resolução computacional
501
OCDE: 500 · novo domínio
PISA 2025, Matemática: Portugal e sistemas de referência
Singapura563
Japão525
Coreia522
Estónia508
Suíça499
Canadá485
Polónia484
Países Baixos483
Média OCDE463
Portugal460

Escala das barras: 0 a 600 pontos.

Portugal em Matemática: pontos perdidos face a 2015 (492 pontos)
2018 (492)0
2022 (472)-20
2025 (460)-32
Apenas 6% dos alunos portugueses atingem os níveis de desempenho mais altos em Matemática e em Ciências (OCDE: 8%) e só 3% em Leitura (OCDE: 6%). A quebra não se explica apenas pela pandemia: entre 2022 e 2025 perderam-se mais 12 pontos.

O PISA não permite estabelecer uma relação de causa e efeito direta entre falta de professores e resultados, e a entrada recente de muitos alunos que ainda estão a aprender português também pesa nas médias. Mas os dados apontam no mesmo sentido: 44% dos alunos portugueses estão em escolas cujos diretores reconhecem que a falta de professores afeta o ensino, acima da média da OCDE. O único resultado claramente positivo surge no novo domínio de resolução computacional de problemas, onde Portugal fica ligeiramente acima da média.



Portugal face aos países com melhores resultados

A comparação com alguns dos sistemas com melhores resultados no PISA 2025 mostra um padrão claro. Nenhum deles combina, como Portugal, um corpo docente muito envelhecido, quase sem jovens, com níveis tão baixos de satisfação salarial e de reconhecimento social.

País
Matemática PISA 2025
Professores com 55+ anos
Professores com menos de 35
Satisfeitos com o salário
Profissão valorizada
Japão
525
19%
34%
28,6%
29,6%
Coreia
522
10%
28%
28,6%
35,2%
Estónia
508
38%
16%
30,0%
20,3%
Polónia
484
25%
11%
20,5%
10,4%
Países Baixos*
483
23%
27%
74,1%
37,1%
Média OCDE
463
23%
22%
38,7%
21,7%
Portugal
460
37%
6%
13,4%
8,7%

Fontes: PISA 2025 (Matemática); Education at a Glance 2026, tabelas 4 (idade, básico e secundário, 2024) e 5 (satisfação e valorização, professores do 3.º ciclo, TALIS 2024). *Nos Países Baixos, a OCDE recomenda cautela na leitura dos dados TALIS por risco de enviesamento de não resposta. Em ecrãs pequenos, deslize a tabela para o lado.

A Estónia mostra que um corpo docente envelhecido não é, por si só, uma condenação. O Japão e a Coreia mostram o valor de uma renovação geracional forte, com um em cada três ou quatro professores abaixo dos 35 anos. Os Países Baixos combinam professores jovens com salários e condições que a maioria considera satisfatórios. Portugal fica no fim de quase todas as colunas ao mesmo tempo, e é essa acumulação que torna a situação mais difícil de inverter.



O que isto significa para os professores e para a aprendizagem dos alunos

As grandes decisões (salários, carreira, construção de escolas, colocação de professores) dependem da tutela. Mas o cruzamento destes dados aponta para práticas concretas, ao alcance de qualquer professor e de qualquer disciplina, que fazem diferença na aprendizagem dos alunos numa escola mais cheia e mais diversa.

1Todas as disciplinas ensinam português
Apenas 19% dos alunos do ensino básico cuja língua materna não é o português frequentavam Português Língua Não Materna (14% no secundário). A maioria aprende a língua na aula de Matemática, de História ou de Ciências. Glossários visuais com o vocabulário essencial de cada unidade, enunciados curtos e exemplos resolvidos passo a passo ajudam estes alunos sem baixar a exigência para os restantes. Quando a língua deixa de ser a barreira, o aluno pode mostrar o que realmente sabe do conteúdo.
2Diagnóstico à chegada, não apenas em setembro
Com matrículas que continuam a chegar em outubro e ao longo do ano, a avaliação diagnóstica deixa de ser um momento único. Ter preparada uma pequena bateria de tarefas por ano de escolaridade, pouco dependente da língua, permite perceber em poucos dias onde está cada aluno recém-chegado e ajustar o apoio. Evita-se assim que um aluno fique semanas a acompanhar conteúdos para os quais não tem as bases.
3Diferenciar em vez de reter
Os alunos estrangeiros ficam retidos três a cinco vezes mais do que os colegas portugueses; no secundário, a taxa chega a 29%, contra 8,3%. Tarefas com vários pontos de entrada, trabalho em pares com colegas que partilham a língua e tutorias curtas e frequentes são mais eficazes do que repetir o ano inteiro. Estas estratégias beneficiam também os alunos portugueses com dificuldades, numa altura em que só 6% atingem os níveis mais altos em Matemática.
4Acolher quem chega à profissão
Na OCDE, 38% dos professores que se demitem têm menos de cinco anos de serviço. Em Portugal, com apenas 6% de docentes abaixo dos 35 anos, cada jovem professor que fica conta. Partilhar materiais, planificações e instrumentos de avaliação no departamento, e ter um colega de referência nas primeiras semanas, reduz o isolamento de quem chega contratado a meio do ano. O relatório lembra que, em Portugal, a mentoria pode ser compensada com redução das horas letivas, uma possibilidade que as escolas podem usar para dar tempo real a este acompanhamento. Para os alunos, significa continuidade: menos mudanças de professor e menos semanas perdidas.
5Orientar a formação para as necessidades reais
Os professores portugueses já fazem muita formação contínua. O desafio é escolher a que responde aos problemas de hoje: ensino em turmas multilingues, gestão de comportamentos (91% dos professores lidam frequentemente com alunos perturbadores) e diferenciação pedagógica. Uma ação de formação que resulte numa estratégia aplicada na semana seguinte tem mais impacto na aprendizagem do que várias horas acumuladas sem ligação à sala de aula.
6Envolver as famílias recém-chegadas
Muitas famílias imigrantes desconhecem o funcionamento da escola portuguesa: avaliação, horários, plataformas, apoios. Mensagens simples, com recurso a tradução automática quando necessário, e um primeiro contacto presencial aumentam a assiduidade e o acompanhamento em casa. É também uma forma de tornar visível o trabalho dos professores junto da comunidade, num país onde apenas 8,7% sentem que a profissão é valorizada.



Fontes

CIES-Iscte / Secretaria-Geral da Educação e Ciência (2017). A dimensão das turmas no sistema educativo português
Conselho Nacional de Educação (2016). Organização escolar: as turmas
Blatchford, P., Bassett, P. e Brown, P. (2011). Examining the effect of class size on classroom engagement and teacher-pupil interaction, Learning and Instruction
Fredriksson, P., Öckert, B. e Oosterbeek, H. (2013). Long-Term Effects of Class Size, Quarterly Journal of Economics
Angrist, J. e colegas (2019). Maimonides’ Rule Redux, AER: Insights

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