Preparar os alunos para a era da IA

Preparar os alunos para a era da IA

OCDE & Comissão Europeia · Quadro AILit · 2026

Preparar os alunos para a era da IA

Um novo quadro internacional define o que significa ser-se competente em inteligência artificial dos 6 aos 18 anos — e dá aos professores um vocabulário comum e exemplos concretos para levar para a sala de aula.

Em 2026, a OCDE e a Comissão Europeia publicaram em conjunto o quadro Empowering Learners for the Age of AI (abreviado como quadro AILit), um referencial de literacia em inteligência artificial para o ensino primário e secundário. Resulta de uma consulta internacional com mais de 2 000 participantes de mais de 100 países — e Portugal está entre os ministérios da Educação que contribuíram com revisões escritas.

O documento não impõe um currículo nem se destina a aplicar o Regulamento Europeu de IA. Serve um objetivo mais útil para quem está na sala de aula: estabelecer uma linguagem comum sobre o que os alunos devem saber, saber fazer e como se devem posicionar perante a IA — com exemplos práticos pensados para serem adaptados a cada contexto. Este artigo resume o essencial e destaca o que interessa a quem quer inovar nas suas aulas.

Empowering Learners for the Age of AI — quadro de literacia em IA da OCDE e da Comissão Europeia

Para os professores portugueses, este referencial chega num momento oportuno. As nossas escolas já trabalham com as Aprendizagens Essenciais e o perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória, mas faltava um vocabulário partilhado sobre IA que cruzasse disciplinas e ciclos. O quadro AILit oferece exatamente isso — um ponto de partida comum que cada docente pode adaptar, em vez de partir do zero ou ficar dependente de modas e ferramentas avulsas. E faz sentido que assim seja: Portugal foi um dos países cujo ministério da Educação participou na revisão do documento, pelo que as realidades das nossas salas de aula estão refletidas no resultado final.

Para os alunos portugueses, o que está em jogo é a sua autonomia. Os jovens em Portugal usam estas ferramentas tanto como os seus pares europeus, mas usá-las não é o mesmo que compreendê-las. Ao desenvolver literacia em IA, os alunos ficam mais preparados para questionar resultados, reconhecer enviesamentos e desinformação, proteger os seus dados e fazer escolhas conscientes — competências decisivas para a sua vida cívica, académica e profissional, dentro e fora da sala de aula.

Porque é urgente

Os alunos já usam IA — falta-lhes orientação

88–96%
dos adolescentes europeus (13–18 anos) usa ferramentas de IA para tarefas escolares e criativas pelo menos algumas vezes por semana.
os jovens dos 16 aos 24 anos usam IA generativa quase o dobro da população geral (Eurostat, 2026).
63%
dos inquiridos do Eurobarómetro concorda que todos terão de ser competentes em IA até 2030.

A utilização é generalizada, mas traz riscos reais: desinformação, conteúdos inadequados, enviesamentos, questões de privacidade e a pegada digital. Há ainda sinais preocupantes — muitos adolescentes recorrem a “companheiros” de IA como substitutos de conversas humanas, e a investigação associa o uso pouco refletido de IA a uma “preguiça metacognitiva” que pode enfraquecer o pensamento crítico e a autorregulação. A literacia em IA é a resposta da escola a este cenário.

A ideia central

Literacia em IA não é o mesmo que usar IA

É a distinção mais importante do documento. Usar um chatbot não desenvolve, por si só, literacia em IA — tal como conduzir não ensina mecânica. A literacia nasce de compreender como a IA funciona e de avaliar criticamente o seu papel na vida diária; é isso que torna a utilização posterior mais criativa, eficaz, inclusiva e ética.

Definição de literacia em IA

O conjunto de conhecimentos técnicos, competências duradouras e atitudes orientadas para o futuro necessários para prosperar num mundo influenciado pela IA. Permite aos alunos interagir com a IA, criar com ela, geri-la e moldá-la, avaliando criticamente os seus benefícios, riscos e implicações éticas.

A arquitetura do quadro

Os quatro domínios

O quadro organiza-se em quatro domínios, apresentados como uma possível sequência de aprendizagem. Interagir é a base; Criar e Gerir desenvolvem-se em paralelo, com experiência prática; e Moldar é o ponto de chegada, mais técnico, que pode exigir mais andaimes e tempo.

01

Interagir com a IA

Tornar-se um participante crítico e responsável num mundo marcado pela IA

Domínio fundacional. Os alunos aprendem a identificar onde há IA, a perceber oportunidades e riscos, a avaliar resultados e a decidir o papel da IA no dia a dia. Inclui reconhecer enviesamentos, recomendações que limitam perspetivas e o custo ambiental da tecnologia.

7 competências · da identificação de IA no quotidiano à análise do alinhamento ético de um sistema.
02

Criar com a IA

Usar a IA como parceira criativa, mantendo a agência humana

A IA como veículo para concretizar — e não substituir — as ideias do aluno. Brainstorming, prototipagem, iteração e pedido de feedback, sempre com reflexão sobre originalidade, autoria, propriedade intelectual e direitos de autor.

4 competências · explorar perspetivas, visualizar e combinar ideias, dirigir a IA para obter feedback, analisar autenticidade e propriedade intelectual.
03

Gerir a IA

Dividir o trabalho de forma intencional entre humanos e IA

O aluno como decisor: compara abordagens, decompõe problemas e decide quando a IA deve automatizar, quando deve apoiar e quando não deve ser usada — reservando para o humano o juízo, a criatividade e a relação. Monitoriza e ajusta ao longo do processo.

4 competências · decidir se usa IA, escolher a abordagem certa, decompor tarefas e monitorizar o uso.
04

Moldar a IA

Melhorar os sistemas de IA para refletirem valores humanos

O domínio culminante. Através de explorações de princípios de informática adequadas à idade, os alunos veem a IA como algo deliberado e humano — não inevitável. O objetivo não é construir produtos comerciais, mas perceber que podem moldar a tecnologia. Pode pedir colaboração com docentes de informática.

4 competências · investigar, avaliar, conceber com atenção aos dados e melhorar sistemas para o bem comum.

Nota terminológica: no original, os domínios são Engage, Create, Manage e Shape AI. Os quatro constroem-se uns sobre os outros para dar aos jovens a agência de fazerem juízos informados sobre a IA, para si e para os outros.

A base de cada competência

Conhecimentos, competências e atitudes

Cada competência assenta em três pilares. Repare que muitas das competências (pensamento crítico, criatividade, resolução de problemas, pensamento computacional) são capacidades humanas de sempre — agora aplicadas a um contexto de IA. Isto é uma boa notícia para quem ensina: grande parte já faz parte da sua prática.

Conhecimentos

O que saber

  • A natureza da IA
  • A IA reflete escolhas e perspetivas humanas
  • Capacidades e limitações da IA
  • O papel da IA na sociedade

Competências

O que saber fazer

  • Pensamento crítico
  • Colaboração
  • Criatividade
  • Resolução de problemas
  • Pensamento computacional
  • Comunicação
  • Autoconsciência e consciência social

Atitudes

Como se posicionar

  • Reflexivo
  • Responsável
  • Curioso
  • Inovador
  • Adaptável
  • Empático

Como se traduz em aula

Expectativas de aprendizagem em três níveis

Cada competência vem acompanhada de Expectativas do Aluno — progressões do nível Básico ao Intermédio e Avançado — e de cenários “Na sala de aula”. Ponto fundamental: estes níveis não correspondem a anos ou idades, porque os alunos chegam com diferentes graus de exposição à IA. Servem como andaimes para o professor partir do ponto onde cada aluno está. Veja a progressão da competência “Avaliar se os resultados da IA devem ser aceites, revistos ou rejeitados”:

Básico

Os alunos percebem porque é que os resultados gerados por IA devem ser verificados e reconhecem como podem verificá-los.

Intermédio

Os alunos verificam os resultados da IA quanto a rigor e relevância, consultando fontes fidedignas e considerando o que a tarefa exige.

Avançado

Os alunos avaliam os resultados e justificam a decisão de os aceitar, rever ou rejeitar.

Os autores incentivam os professores a usarem estas progressões para construir as suas próprias grelhas de avaliação e a adaptarem os cenários à legislação e às orientações locais — sobretudo quando envolvem redes sociais ou uso de tecnologia em sala de aula.

Para quem ensina matemática

Cenários que cabem na sua planificação

Vários exemplos do quadro encaixam diretamente em conteúdos do programa português. Alguns para começar:

  • Verificar uma resolução (Interagir, Básico). Os alunos analisam a solução que uma ferramenta de IA dá a um problema de matemática, com a explicação, e comparam-na com o processo que o professor apresentou. Excelente para discutir rigor e para mostrar que “parecer convincente” não é o mesmo que “estar correto”.
  • Razões e proporções com a IA (Criar, Intermédio). Os alunos concebem um modelo tridimensional de um jardim geométrico usando razões e proporções e comparam as dimensões sugeridas pela IA com os seus próprios cálculos para garantir a exatidão matemática. A IA propõe; o aluno valida.
  • Dados e gráficos (Moldar, Avançado). A turma faz um inquérito para escolher um animal de estimação e representa os resultados num gráfico de barras; depois compara com inquéritos de ano e de escola e discute como o tamanho e a diversidade do conjunto de dados alteram os resultados — e como um sistema de IA recomendaria de forma diferente consoante os dados de treino.
  • Regras vs. aprendizagem (Gerir, Intermédio). Comparar tecnologia que segue regras fixas (calculadoras, semáforos, termóstatos) com tecnologia treinada a partir de exemplos (reconhecimento de imagem, tradução). Uma porta de entrada simples para distinguir sistemas baseados em regras de aprendizagem automática.
Mesmo explorações simples e adequadas à idade sobre como a IA funciona podem gerar aprendizagens poderosas — e ajudar os alunos a perceber que podem moldar a tecnologia, e não apenas ser moldados por ela. — Cathy Adams, Universidade de Alberta

O professor no centro

A tecnologia não dispensa o docente — exige-o mais

À medida que a IA entra nas salas de aula, o juízo profissional, as relações de confiança e a competência pedagógica dos professores tornam-se mais essenciais, não menos. Mas há uma lacuna a fechar, e os dados do estudo TALIS 2024 da OCDE são claros:

1 em 3
professores usa IA, em média.
3 em 4
afirmam não ter os conhecimentos e competências para ensinar com IA.
81%
dos cidadãos europeus concorda que todos os professores devem estar preparados para usar e compreender a IA.

A boa notícia: onde houve formação, houve impacto. Cerca de 40% dos professores nos sistemas da OCDE receberam formação sobre IA em 2024, e em metade desses sistemas isso reduziu a necessidade de formação contínua. O documento defende formação que não se limite às ferramentas, mas trabalhe métodos pedagógicos, reflexão ética e a agência do aluno — porque, como lembra o texto, o propósito da educação é maior do que poupar tempo.

Importante também: a literacia em IA é uma responsabilidade partilhada. Professores, lideranças escolares, decisores políticos, designers de aprendizagem e famílias têm papéis distintos mas ligados. Nenhum docente — nem nenhuma disciplina — carrega isto sozinho.

Transversal a tudo

Ética e ambiente não são um capítulo à parte

O quadro entrelaça a ética em todos os materiais em vez de a isolar num tema. Como os sistemas de IA refletem escolhas humanas em todo o seu ciclo, avaliar implicações éticas é inseparável de compreender como funcionam. Os princípios orientadores incluem a agência do aluno, a transparência, a responsabilidade, o respeito pela privacidade, a sustentabilidade ambiental e a pergunta permanente: quem beneficia e quem pode ser prejudicado?

O ambiente ganha destaque próprio. A IA consome energia, minerais e água e contribui para emissões de carbono. Antes de usar uma ferramenta, o quadro sugere uma pergunta simples para levar aos alunos: “haverá uma alternativa mais ecológica?”

Indicações práticas

Como começar a inovar nas suas aulas

Reunindo as orientações do documento, eis um ponto de partida para professores que queiram integrar literacia em IA de forma sólida:

  1. Adapte, não adote à letra. O quadro é não vinculativo e foi feito para ser localizado. Escolha uma competência e um cenário que sirvam o seu conteúdo e os seus alunos — e alinhe com as Aprendizagens Essenciais e com as regras da sua escola.
  2. Comece pela compreensão, não pela ferramenta. O objetivo é desenvolver conhecimentos e competências humanas valorizadas; a IA é meio, não fim. Interagir com um chatbot não basta.
  3. Use linguagem tecnicamente rigorosa. Evite o antropomorfismo (“a IA pensa”, “a IA percebe”). Trabalhe com os alunos descrições corretas — o vocabulário molda o que eles acreditam que a IA consegue ou não fazer.
  4. Construa as suas próprias rubricas. Parta das Expectativas do Aluno (Básico → Intermédio → Avançado) para avaliar progressões, sabendo que não estão presas a anos de escolaridade.
  5. Promova aprendizagem ativa, não dependência. Estruture o uso da IA com andaimes para combater a “preguiça metacognitiva” e proteger o pensamento crítico, a persistência e o raciocínio autónomo.
  6. Trabalhe a privacidade e os dados. Ensine o que deve e não deve ser partilhado com sistemas de IA — informação pessoal, de terceiros ou sensível.
  7. Diga claramente que a IA não é humana. Fundamental para a saúde mental e para lidar com os “companheiros” de IA. A IA não tem compreensão, intenção nem relações autênticas.
  8. Colabore entre disciplinas. O domínio “Moldar a IA” beneficia de parcerias com informática; a literacia em IA cruza ciência da computação, literacia mediática e digital, ciência de dados e ciências sociais.

Fonte: OCDE / União Europeia (2026). Empowering Learners for the Age of AI: An AI Literacy Framework for Primary and Secondary Education. OECD Publishing, Paris. Iniciativa conjunta da Comissão Europeia e da OCDE, com contributo para a avaliação PISA 2029 (MAIL).

Obra disponibilizada sob licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0). Este artigo é uma síntese e adaptação para professores portugueses; os dados e citações são parafraseados a partir do documento original.

Síntese para fins educativos · texto em português europeu · adapte livremente ao seu contexto e à sua turma.

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